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Histórico e Definição
O termo traqueostomia refere-se à operação que realiza uma abertura e
exteriorização da luz traqueal. A primeira descrição cirúrgica com sucesso data
de 1546, por um médico italiano, Antonio Musa Brasavola, que operou um paciente
com "abscesso na garganta" [1]. Entretanto, a aceitação universal só veio com os
trabalhos de Chevalier e Jackson, no início do século XX, que descreveram
pormenores da técnica, suas indicações e complicações [2, 3].
Anatomia Cirúrgica
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| Figura 1. Cartilagem da laringe. Visão anterior Copyright ©
1995 Ciba-Geigy Corporation Ali rights reserved. |
A laringe é composta por um esqueleto cartilaginoso rígido, com função de
permeio das vias aéreas, fonação, além de participar da primeira e da segunda
fases da deglutição. As três principais cartilagens envolvidas na função
respiratória e vocal são: a cartilagem tireóide, a cartilagem cricóide e um par
de cartilagens aritenóides. A membrana cricotireóidea faz a ligação da borda
inferior da cartilagem tireóide à cartilagem cricóide. O espaço subglótico
inicia-se abaixo das cordas vocais e se estende até à margem inferior da
cartilagem cricóide. Ele é o local de menor diâmetro interno (no adulto, entre
1,5 e 2,0 cm), e é circundado pela cartilagem cricóide, que é o único anel
cartilaginoso completo das vias aéreas, características que predispõem este
espaço a inúmeras complicações [5].
A traquéia estende-se da borda inferior da cartilagem cricóide até à carina.
A parede posterior é membranosa e faz relação com a parede anterior do esófago.
Em nível do segundo anel traqueal, situa-se o istmo da tireóide. Outro aspecto
interessante é a sua mobilidade; é sabido que toda sua extensão cervical pode se
localizar no mediastino, pela simples flexão cervical, assim como a
hiperextensão pode trazer uma porção significativa situada no mediastino para a
região cervical. A irrigação sangüínea da traquéia tem íntima relação com o
suporte sanguíneo do esófago; a sua porção cervical é irrigada,
predominantemente, por ramos da artéria tireóidea inferior. Digno de nota, é que
esta rede anastomótica penetra na traquéia na sua margem lateral, o que nos leva
a evitar a dissecção extensa nessa região, assim como uma dissecção
circunferencial da traquéia durante a traqueostomia. Outro aspecto interessante
é a característica predominantemente submucosa desta rede anastomótica, o que
torna compreensível o porquê dos anéis traqueais poderem ser lesados por
isquemia, devido à hiperinsulfIação de um cuff endotraqueal. Durante a
realização de uma traqueostomia as estruturas que serão encontradas, por ordem
de aparição, são: pele e subcutâneo, platisma, musculatura pré-traqueal,
eventualmente o istmo tireoideano (que se situa entre o 1º e o 2º anel
traqueal), e a fáscia pré-traqueal [4].
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| Figura 2.Veias superficiais e nervos cutâneos do pescoço.
Copyright © 1995 Ciba-Geigy Corporation Ali rights
reserved. |
Tabela 1 - Indicações de Traqueostomia |
1. Obstrução das vias aéreas
a. Disfunção laríngea b. Trauma c. Queimaduras e
corrosivos d. Corpos estranhos e. Anomalias congênitas f.
Infecções g. Neoplasias h. Manejo pós-operatório i. Apnéia do
sono
2. Limpeza das vias aéreas
a. Idade avançada b. Fraqueza c. Doenças neuromusculares
3. Suporte ventilatório
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Indicações
Historicamente, a traqueostomia foi desenvolvida para promover a
desobstrução das vias aéreas. Com os avanços técnicos atuais, tais como
laringoscópio e broncoscópio de fibra ótica, as indicações tradicionais da
traqueostomia (como por exemplo a epiglotite aguda e obstruções tumorais)
sofreram uma grande mudança. Nestas situações, a broncoscopia de fibra ótica
possibilita reservar a traqueostomia para uma situação eletiva, fugindo da maior
incidência de morbidade e mortalidade da traqueostomia de urgência. A
traqueostomia, portanto, não é o procedimento de escolha no manejo da obstrução
aguda das vias aéreas [3] .
Hoje em dia, a sua principal utilização é no manejo de pacientes que
necessitam períodos prolongados de suporte ventilatório mecânico. Há, ainda, a
utilização da traqueostomia com o intuito de promover uma adequada limpeza das
vias aéreas, mesmo na ausência de necessidade de ventilação mecânica. A Tabela 1
resume estas três principais categorias de indicação da traqueostomia [6]:
Obstrução das Vias Aéreas
Disfunção Laríngea. A paralisia abdutora das cordas vocais, que ocorre
na lesão do nervo laríngeo recorrente (por exemplo, durante a realização de uma
tireoidectomia) pode levar desde a obstrução leve das vias aéreas até a uma
obstrução completa, necessitando de uma traqueostomia.
Trauma. 1) Lesões maxilofaciais graves; 2) Fraturas ou transecções da
laringe ou da traquéia, que podem estar presentes nos traumas da porção anterior
do pescoço; 3) Lesões da medula cervical que impeçam uma manipulação do pescoço
são situações encontradas no trauma onde a abordagem das vias aéreas por
intubação oro ou nasotraqueal torna-se difícil ou inviável. A preferência nestas
situações seria pela cricotireoidostomia, mas, freqüentemente, também não é
possível realizá-la. Nestes casos, está indicada a traqueostomia de urgência.
Uma outra situa- ção especial para a sua utilização é no grupo pediátrico
(abaixo de 12 anos) onde a intubação translaríngea não foi possível, uma vez que
a cricotireoidostomia não é recomendada nesta faixa etária [7].
Queimaduras e Corrosivos. Inalação de gases quentes, gases tóxicos ou
corrosivos podem resultar em edema glótico significativo. Caso os métodos
translaríngeos falhem ou sejam inviáveis, podemos fazer uso da
traqueostomia.
Corpos Estranhos. Tentativas de retirada dos corpos estranhos são
realizadas, inicialmente, por manobras mecânicas ou endoscópicas. Comumente, ao
chegar ao hospital, a vítima já passou da fase aguda, por isso a traqueostomia,
nessas situações, é pouco utilizada.
Anomalias Congênitas. Estenose da glote ou subglótica são exemplos de
entidades conhecidas no recém-nato que podem necessitar de traqueostomia.
Infecções. Modernamente, a intubação orotraqueal em pacientes com
epiglotite ou difteria pode ser realizada com o auxílio de um broncoscópio, não
havendo esta disponibilidade, a traqueostomia pode ser utilizada [8].
Neoplasias. A traqueostomia pode ser uma opção eficaz de alívio em
casos de tumores avançados da laringe e orofaringe.
Apnéia do Sono. Alguns pacientes possuem as vias aéreas livres quando
acordados, mas pode haver obstrução das vias aéreas por flacidez e colapsamento
dos músculos faríngeos durante o sono. Apenas os pacientes com distúrbios
severos é que são candidatos à traqueostomia [9].
Limpeza das Vias Aéreas
Devido à idade; fraqueza, ou doenças neuromusculares, certos pacientes são
incapazes de expelir, adequadamente, secreções traqueobrônquicas decorrentes de
pneumonia, bronquiectasia ou aspiração crónica. Nestes casos, a traqueostomia
pode ser benéfica, pois permite a limpeza e aspiração das vias aéreas, sempre
que necessário. Atualmente, a minitraqueostomia percutânea tem se mostrado
eficaz na limpeza traqueobrônquica, surgindo como opção válida por sua
simplicidade e segurança [10].
Suporte Ventilatório
Pacientes que recebem suporte ventilatório prolongado estão expostos a uma
variedade de complicações tardias decorrentes da intubação endotraqueal
prolongada, tais como: lesões da mucosa, estenose glótica e subglótica, estenose
traqueal e abscesso cricóide. Estas complicações estão diretamente relacionadas
com o tempo de intubação endotraqueal. O tempo ideal de duração de uma intubação
oro ou nasotraqueal, antes da conversão eletiva para traqueostomia, ainda é
controverso. Sabe-se também, que há outros benefícios com a conversão para uma
traqueostomia, tais como: menor taxa de autoextubação da traqueostomia; melhor
conforto para o paciente; possibilidade de comunicação pelo paciente;
possibilidade da ingesta oral; uma melhor higiene oral; e um manuseio mais fácil
pela enfermagem [3]. Desta maneira, temos utilizado os seguintes parâmetros
[12]:
- Tubos endotraqueais podem permanecer nos casos em que a extubação é prevista
em um período de sete a 10 dias.
- Depois de sete dias de ventilação mecânica, caso a extubação seja improvável
nos próximos cinco a sete dias, a traqueostomia deve ser considerada.
- Nos pacientes onde, antecipadamente, já se prevê um tempo de ventilação
mecânica superior a 14 dias, a traqueostomia deve ser considerada o mais breve
possível.
Contra-indicações
Traqueostomia de Urgência. É sabido que os riscos de complicações são
de duas a cinco vezes maiores do que em situações eletivas, portanto não é um
método a ser utilizado na urgência [7]. As exceções se fazem nas situações
específicas já citadas.
Traqueostomia à Beira do Leito. A traqueostomia deve ser realizada no
centro cirúrgico com todos os suportes necessários, sua realização à beira do
leito deve ser evitada. A exceção se faz em um ambiente de terapia intensiva,
quando a saída do paciente daquele local pode trazer riscos para o mesmo. É
factível, então, a realização da traqueostomia no leito de uma UTI, desde que as
condições cirúrgicas sejam estabelecidas no local [11].
Técnica Cirúrgica
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| Figura 3. | A traqueostomia eletiva
convencional deve ser realizada em um ambiente cirúrgico, que possui
instrumental, iluminação e assistência adequada. O procedimento começa com o
posicionamento do paciente, que deve estar em decúbito dorsal com um coxim sob
os ombros e o pescoço em extensão (Fig. 3).
Após a assepsia e anti-sepsia do campo operatório, realiza-se a infiltração
anestésica do campo operatório. A incisão deve ser transversal, com 3 a 5 cm, a
uma polpa digital abaixo da cartilagem cricóide. Nos casos onde a cartilagem
cricóide é palpada na altura da fúrcula esternal, a incisão é realizada a uma
polpa digital acima da fúrcula esternal. A incisão prolonga-se na pele
subcutânea, até encontrar o plano dos músculos pré-taqueais (Fig. 4).
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| Figura 5. |
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| Figura 4. |
A musculatura prétraqueal (esternoióideo e esternotireóideo) é separada na
sua rafe mediana e afastada, Iateralmente. Na maioria das vezes, o istmo
tireoideano é facilmente deslocado cranialmente por dissecção romba [3].
Eventualmente, pode ser necessário a secção mediana do istmo com sutura de seus
bordos, para melhor exposição da traquéia. Uma incisão horizontal é então
realizada entre o terceiro e quarto anéis traqueais (Fig. 5).
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| Figura 6. |
Em crianças, a incisão deve ser realizada verticalmente. São então passados
fios de reparo em cada lado da abertura traqueal com o intuito de facilitar a
troca da cânula, ou a sua recolocação em caso de extubação espontânea,
principalmente, na primeira semana, enquanto um trajeto delimitado do estoma
ainda não foi formado. Deve ser evitada a realização da abertura traqueal muito
baixa (no 5Q, 6Q, ou 7? anel traqueal), fato que pode ocorrer pela hiperextensão
do pescoço, pois predispõe a uma grave complicação, que é a fístula
traqueoinominada [13]. Após a abertura da traquéia, o tubo endotraqueal, quando
presente, é cuidadosamente tracionado até um nível justamente acima da incisão
traqueal, mas não retirado; a traquéia é então aspirada para a remoção de sangue
ou secreções, e a cânula traqueal, já previamente selecionada e testada, é
introduzida na luz traqueal (Fig. 6).
Deve ser feita a imediata checagem de sua posição e perviedade. A ferida é
fechada com pontos esparsos, para evitar complicações precoces, como enfisema
subcutâneo, abscesso periostômico ou celulite.
Fixa-se a cânula de traqueostomia com uma fita ao redor do pescoço. Havendo
dúvida quanto ao correto posicionamento da cânula, ou nos casos de dificuldade
de realização da traqueostomia, deve ser realizado uma radiografia de tórax e
pescoço [14]. A técnica para a traqueostomia na urgência é modificada pela
feitura da incisão da pele verticalmente e realização de toda a dissecção na
linha mediana até a parede traqueal.
Tubos e Cânulas
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| Figura 7. Cânula de traqueostomia. |
Desde o século XVI, quando o primeiro tubo de traqueostomia foi descrito por
Fabricius, virtualmente todos os tubos eram feitos de metal. Estes tubos possuem
uma cânula interna que pode ser removida para limpeza. Em fins de 1960,
começaram a ser experimentadas as cânulas plásticas que possuem um balonete
(cuff) com a função de ocluir as vias aéreas, a fim de que permita uma
ventilação mecânica com pressão positiva, além de minimizar a aspiração de
secreções da orofaringe. No passado, estes cujfs eram associados a uma alta
incidência de estenose traqueal (cujf de alta pressão) [15]. Entretanto, os
cuffs atuais (Fig. 07), que possuem um grande volume e baixa pressão,
minimizaram, mas não eliminaram, os problemas focais de isquemia da traquéia
[16]. A pressão ideal de um cufl deve ser em torno de 25 mmH2O ou o mínimo
necessário para que não haja escape de ar durante a ventilação mecânica.
Há, ainda, uma série de outros tipos de tubos e cânulas disponíveis. Existem
tubos que possuem uma válvula ou fenestração, em sua porção posterior, com o
intuito de permitir a fonação pelo paciente. As cânulas de Kistner são cânulas
curtas e retas, que se estendem da pele até à parede anterior da traquéia,
podendo ser abertas intermitentemente (muito útil para pacientes com miastenio
gro1lis e apnéia do sono). Por fim, os tubos em "T" ou de Montgomery são
utilizados sempre que pacientes são submetidos à reconstrução da traquéia com
anastomose término-terminal, até que a completa cicatrização da anastomose tenha
ocorrido [3, 6].
Complicações
Jackson, em fins de 1920, revolucionou a traqueostomia, com a metodização da
técnica e redução da mortalidade operatória de 25% para 1% [2]. Os trabalhos
atuais mostram uma morbidade em torno de 6% e uma taxa de mortalidade menor do
que 1% [3,6,11,13,17]. Para atingir estes resultados, devemos seguir uma técnica
meticulosa, ter um ambiente cirúrgico adequado, escolher corretamente as cânulas
e tubos, e prover cuidados pós-operatórios adequados. As complicações da
traqueostomia podem ser divididas em três grupos: intra-operatórias,
complicações precoces e complicações tardias.
Tabela 1 - Indicações de Traqueostomia |
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1. Intra-operatórias
a. Sangramento b. Mau posicionamento do tubo c. Laceração
traqueal e fístula traqueoesofágica d. Lesão do nervo laríngeo
recorrente e. Pneumotórax e pneumomediastino f. Parada
cardiorrespiratória
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2. Complicações precoces
a. Sangramento b. Infecção da ferida c. Enfisema
subcutâneo d. Obstrução da cânula e. Desposicionamento f.
Disfagia
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3. Complicações tardias
a. Estenose traqueal e subglótica b. Fístula
traqueoinominada c. Fístula traqueoesofágica d. Fístula
traqueocutânea e. Dificuldade de
extubação
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Intra-operatórias
Sangramento. O sangramento das veias jugulares anteriores ou do istmo
da tireóide é facilmente controlado com ligaduras e cauterização cuidadosas.
Manter a dissecção na linha média evita a lesão das artérias carótidas ou veias
jugulares.
Mau Posicionamento da Cânula. A presença de sangramento, exposição
deficiente das estruturas, istmo tireoideano intacto, ou inexperiência podem
levar a um posicionamento do estoma, tanto muito alto quanto muito baixo, na
traquéia ou, até mesmo, à colocação da cânula no espaço pré-traqueal.
Dificuldade na ventilação, enfisema mediastinal, pneumotórax e dificuldade em
aspirar através da cânula, podem ser sinais de um posicionamento inadequado
desta. O tratamento consiste na imediata remoção e reinserção, ou o
estabelecimento da intubação translaríngea e ventilação.
Laceração Traqueal ou Fístula Traqueoesofágica. Pode ocorrer lesão
iatrogênica da parede traqueal ou da parede esofágica durante o procedimento.
Esta complicação pode ser evitada com uma exposição adequada da traquéia e
introdução cuidadosa da cânula.
Lesão do Nervo Laríngeo Recorrente. Pode ocorrer, se a dissecção é,
inadvertidamente, efetuada lateralmente à traquéia. Felizmente, é uma
complicação rara. É evitada com a dissecção restrita à linha média.
Pneumotórax e Pneumomediastino. Pneu- momediastino pode ocorrer devido
a um mau posicionamento da cânula, como descrito anteriormente, que leva à
dissecção de ar através do tecido conjuntivo mediastinal. Pneumotórax pode
ocorrer por lesão direta da cúpula pleural, ou ruptura de uma bolha pulmonar. A
incidência de pneumotórax pós-traqueostomia é de 0% a 4%, em adultos, e 10% a
17% em crianças [11,18] . Em crianças, essa incidência é maior devido ao
freqüente posicionamento da cúpula pleural acima da clavícula. Estudos recentes
demonstram que a radiografia de tórax de controle somente é necessária nos casos
onde houve dificuldade de realização do procedimento ou na presença de sinais ou
sintomas de pneumotórax ou pneumomediastino [14].
Parada Cardiorrespiratória. Ocorre devido à perda do controle das vias
aéreas, pode ser evitada com a manutenção da intubação translaríngea, até que a
realização da traqueostomia seja assegurada e confirmada. Nos pacientes com
obstrução das vias aéreas que não possuem previamente um tubo endotraqueal, a
traqueos- tomia é melhor realizada com anestesia local e sedação mínima.
Complicações Precoces
Sangramento. O sangramento é a maior causa de complicação no período
pós-operatório precoce [11,19]. Normalmente, sangramentos pequenos podem ser
controlados com a elevação da cabeceira do leito, troca dos curativos e
compressão local. Mas sangramentos maiores devem ser tratados em ambiente
cirúrgico, para uma adequada revisão da hemostasia, com ligadura dos vasos
sangrantes. O sangramento vultoso é raro, e geralmente é devido a uma lesão
inadvertida da artéria inominada. Técnicas para minimizar esta complicação
incluem: manter sempre a dissecção na linha média; afastamento lateral dos
tecidos por planos anatómicos; e uso da ligadura, ao invés da cauterização dos
vasos sanguíneos.
Infecção da Ferida. A traqueostomia é uma ferida contaminada.
Entretanto, abscessos periostômicos ou celulite são raros, considerando que a
ferida é deixada aberta. E, caso ocorram, são tratados com cuidados locais e
antibioticoterapia sistêmica. A antibioticoprofilaxia é contra-indicada
[19].
Enfisema Subcutâneo. Aproximadamente 5% das traqueostomias desenvolvem
enfisema subcutâneo. Normalmente, regride em 48h, mas deve alertar o cirurgião
para conferir o correto posicionamento da cânula, assim como excluir pneumotórax
ou pneumomediastino, com uma radiografia torácica.
Obstrução da Cânula. O correto posicionamento da cânula, humidificação
dos gases ventilatórios, além de irrigação e aspiração contínuas ajudam a
prevenir esta complicação. As cânulas que possuem cânula interna ajudam no
manejo desta complicação, pois possibilitam a retirada e limpeza da cânula
interna.
Desposicionamento. O desposicionamento da cânula é mais problemático
quando ocorre nos primeiros cinco a sete dias, pois ainda há um trajeto
delimitado da pele até a luz traqueal. Fios de reparo deixados nos bordos da
abertura traqueal, e exteriorizados, auxiliam no reposicionamento da cânula,
especialmente nos pacientes obesos e com pescoço curto.
Disfagia. Alguns pacientes com traqueos- tomia apresentam queixa de
sensação de "bolo na garganta". A disfagia propriamente dita tam- bém pode
ocorrer, mas em uma proporção bem menor.
Complicações Tardias
Estenose Traqueal ou Subglótica. A coloca- ção da cânula traqueal
próxima à área da glote, que ocorre na cricotireoidostomia ou na traqueostomia
realizada no primeiro anel traqueal, pode levar ao edema e eventual estenose
subglótica. Já a estenose traqueal é relacionada com a isquemia mucosa causada
pela pressão do cujf [15]. Modernamente, com os cujfs de grande volume e baixa
pressão, esta incidência baixou. Entretanto, a traqueostomia prolongada ainda é
responsável pela maioria das estenoses traqueais benignas [5]. A estenose
traqueal pode ocorrer não só no local do cuff, mas também na ponta da cânula ou
no local de abertura traqueal. A maioria dos pacientes com esta complicação
tornam-se sintomáticos entre duas a seis semanas após a retirada da
traqueostomia [13]. Sintomas iniciais são: dispnéia aos esforços, tosse,
incapacidade de limpar secreções e estridor inspiratório ou expiratório. É
importante frisar que: qualquer paciente com estes sintomas, após algum período
de intubaçõo ou traqueostomia, deve ser assumido como portador de obstrução
mecânico, até provo em contrário. Estenoses traqueais sintomáticas devem ser
tratadas com ressecção traqueal segmentar e reconstrução, sempre que possível
[3].
Fístula Traqueoinominada. Felizmente, esta grave complicação ocorre em
menos de 1% das traqueostomias. Um sangramento "sentinela" de sangue vivo ou a
pulsação da cânula de traqueostomia são sinais que devem levar à suspeita desta
complicação, e requerem tratamento cirúrgico imediato. O controle temporário da
hemorragia pode ser feito com a hiperinsulflação do cujf, combinado ou não com a
compressão digital direta [3,11].
Fístula Traqueoesofágica. É uma complicação que ocorre em menos de 1%
das traqueos- tomias, porém causa contaminação da árvore traqueobrônquica e
interfere na adequada nutrição. Normalmente é devido à excessiva pressão do cuff
da cânula contra uma SNG rígida [13].
Fístula Traqueocutânea. Ocasionalmente, um estoma traqueal não fecha
espontaneamente após a remoção da cânula traqueal, fato que ocorre,
principalmente, com a traqueostomia prolongada. Esta é uma complicação benigna e
pode ser tratada com a ressecção do trato epitelial, permitindo, assim, uma
cicatrização secundária [3].
Dificuldade de Extubação. As causas usuais de dificuldade de extubação
são a presença de granuloma ou edema no local do estoma. Alguns granulomas são
facilmente ressecados por loser endoscópico. Por vezes, particularmente em
crianças, os pacientes são relutantes em retirar as cânulas de traqueostomia.
Isso pode ser manejado com a troca da cânula por números progressivamente
menores.
Cricotireoidostomia
A cricotireoidostomia consiste no acesso cirúrgico das vias aéreas através da
membrana cricotireóidea. Seu maior uso é no acesso emergencial das vias aéreas,
particularmente no paciente politraumatizado com lesões maxilofaciais graves,
onde a intubação translaríngea não foi possível ou é contra-indicada. Nestas
situações, a cricotireoidostomia é muito útil, pois permite o acesso rápido e
seguro às vias aéreas. Não deve ser utilizada eletivamente para acesso
prolongado das vias aéreas e também não deve ser utilizada no grupo pediátrico
(abaixo de 10 anos). Toda cricotireoidostomia deve ser convertida para uma
traqueostomia formal dentro de 24h a 72h [7,20].
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| Figura 8.Técnica para Cricotireoidostomia. Incisão
transversa da pele é feita sobre a membrana da cricotireoidiana, que é
posteriormente incisada com o bisturi. Se não houver mecanismo de tração
disponível o cabo do bisturi pode ser colocado no local da incisão e
faz-se posteriormente uma rotação de 90° para abrir a membrana.
Posteriormente é colocado o tubo de
traqueostomia. |
Sua realização é fácil e rápida devido ao fato de que uma vez incisada a
pele, na altura do espaço cricotireóideo, a próxima estrutura a ser encontrada
já é a própria membrana cricotireóidea. (Fig. 08) Uma vez incisada e dilatada a
membrana (que pode ser feito com a própria lâmina de bisturi), basta a
introdução da cânula, que neste caso deve ser de diâmetro menor (em torno de
quatro a seis french). Uma complicação descrita, que é a estenose subglótica,
pode ser evitada com a conversão precoce para uma traqueostomia [7].
Cricotireoidostomia Percutânea (por Agulha)
A cricotireoidostomia percutânea consegue ser um método ainda mais fácil e
simples de acesso das vias aéreas do que a cricotireoidostomia propriamente
dita. Este método nada mais é do que o acesso às vias aéreas, através da
membrana cricotireóidea, por meio de uma punção desta membrana com um extracat
[jelco) de grosso calibre. A ventilação pode ser conseguida através de um alto
fluxo de O2 [10 L/min), ou através de um reservatório caso disponível. O
inconveniente desta técnica é que só se consegue uma oxigenação adequada por um
espaço curto de tempo (mas que é suficiente até que um outro método definitivo
seja obtido) [10].
O maior uso desta técnica é no manejo de pacientes politraumatizados com
urgência de acesso das vias aéreas, onde os métodos translaríngeos e a
cricotireoidostomia são inviáveis ou contra-indicados (por exemplo, em crianças
abaixo de 10 anos, já que a cricotireoidostomia nesta faixa etária é
contra-indicada). Existem também a descrição de sua utilização para a abordagem
de secreções traqueobrônquicas, na limpeza traqueobrônquica e microcirurgia de
laringe. Nos casos de suspeita de corpos estranhos em vias aéreas, a ventilação
deve ser feita com um baixo fluxo de 02 [3,7].
Traqueostomia Percutânea
A traqueostomia percutânea é um método que permite a introdução de cânulas de
traqueostomia, de diâmetro semelhante ao da traqueostomia convencional, e na
mesma localização que a traqueostomia convencional (3Q e 4Q anéis traqueais),
por meio de uma punção percutânea. Ou seja, é uma traqueostomia realizada sem a
dissecção cirúrgica convencional. Este método foi descrito por Toye &
Weinstein, inicialmente em 1969 e, posteriormente, em 1986 [21]. As vantagens do
método são: sua rápida execução; poder ser realizada à beira do leito lo que
torna o método de menor custo); poder ser realizado por não-especialistas, além
de possuir um resultado estético melhor.
É um método que só pode ser utilizado em condições eletivas. É imperativo
possuir os kits próprios para o método. As indicações são, essencialmente, as
mesmas da traqueostomia convencional. Contra-indicações relativas à
traqueostomia percutânea incluem: idade precoce (menos de 16 anos), incapacidade
de palpar as cartilagens tireóide e cricóide, uma glândula tireóide aumentada,
anéis traqueais calcificados e discrasias sangüíneas. Uma contra-indicação
absoluta é o seu uso para um acesso de urgência das vias aéreas [3]. O método
propriamente dito consiste na palpação da cartilagem cricóide para que se possa
presumir a localização do 2? ou 3? anéis traqueais. Em seguida, uma agulha é
então introduzida na luz traqueal, é passado um fio-guia metálico, que servirá
de guia para a introdução de dilatadores seqüencialmente maiores, até que se
possa introduzir a cânula de traqueostomia propriamente dita.
O entusiasmo inicial do método como uma possibilidade para o amplo uso por
não especialistas foi confrontado por inúmeros casos de complicações descritos
na literatura. Apesar de alguns autores relatarem índices de complicações
semelhantes ou inferiores à traqueostomia convencional, existem estudos que
mostram diversas complicações graves, tais como falso trajeto, pneumotórax e
morte, principalmente quando realizada por profissionais pouco experientes
[22,23]. Os resultados da literatura a respeito da eficácia e complicações da
traqueostomia percutânea ainda são conflitantes. Infelizmente, até o momento,
não temos estu- dos prospectivos randomizados publicados que solidifiquem suas
indicações e taxas de complicações.
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